OUTUBRO

  • por Juliana Marcondes 2/nov/16

    outubro,
    ou tudo.
    todo fim
    canto tem.

    conto só,
    um pouco
    do rumo,
    de tudo.

    tudo vem,
    bem também.
    outubro,
    ao mundo.

    [lisboa, 31 de outubro de 2016]

    SETEMBRO

  • por Juliana Marcondes 2/out/16

    sem tempo,
    setembro.

    sem ombro
    também.

    seu tempo
    setembro.

    é tempo
    que não
    tem.

    eu volto
    setembro.

    no tempo
    que não
    vem.

    [lisboa, 30 de setembro de 2016]

    RENTRÉE

  • por Juliana Marcondes 17/set/16

    não lembro quando de fato aconteceu. lembro só quando me dei conta, num fim de tarde de sexta-feira.

    foi no supermercado, levava a mochila com o computador, a bolsa pesada, as flores de assinatura que eu peço para entregarem no trabalho. equilibrava-me com mais três sacolas e dirigia-me para a saída. clássico.

    de repente, olhando as pessoas, percebi. a dinâmica das famílias, o clima de volta às aulas, os hábitos de compras, o ritmo, as rotinas, a ansiedade das crianças, os rostos queimados pelo sol. tudo tão igual aos anos que vi começarem no pós carnaval. janeiro aqui é em agosto. fevereiro é setembro. o que chamam de rentrée. tão local, tão sensível só de quem aqui vive.

    e, pronto, consegui. senti também. senti-me igual a eles. senti esse começo de ano que acontece antes do fim. fiz um pouco parte. tão daqui e longe de lá. tão sutil e tão forte.

    pertencimento: raro, rápido, arrebatador.

    sorri e fui embora dali. carreguei tudo pra casa.

    lisboa, setembro de 2016.

    AGOSTO

  • por Juliana Marcondes 1/set/16

    gosto,
    do tempo,
    de tudo que foi.

    gosto,
    do acaso,
    que ainda não é.

    a gosto,
    o agora
    do que
    quero bem.

    a gosto,
    o golpe
    de onde
    voltei.

    agosto
    passou
    e não sei
    o que vem.

    [lisboa, 31 de agosto de 2016]

    uma hora

  • por Juliana Marcondes 21/ago/16

    mais uma manhã de domingo. verão em lisboa. o céu azul forte, sol claro. calor e brisa. ainda é cedo para domingo. por que tão cedo? não sabia, acordara logo.

    ela resolve sair para correr. não pela corrida. era só mesmo pra colocar o spotify bem alto, ouvir amarante e olhar a cidade. correr pela avenida da liberdade, sentir a música, olhar os turistas e ver o sol bater na baixa. traz uma sensação assim… assim de puro prazer. era ela, também ali.

    chegou à ribeira das naus. lugar favorito. é hora de parar. respirou fundo, fôlego curto. cedo, o quiosque ainda estava abrindo. sentou em uma das espreguiçadeiras vazias. ninguém. colocou a clarice, ainda mais alto. olhou para o lado.

    três metros para esquerda, sentado no muro, ele olhando o tejo.

    a noite ainda não tinha terminado. triste, ele chorava e soluçava. o vinho já tinha passado. devia ser o vigésimo cigarro, o terceiro café.

    ela não soube o que fazer, nada podia dizer. vou seguir, pensou.

    foi ali, que os olhares cruzaram. mais um soluço dele. trinta segundos.

    ela falou sem pensar, voz mansa: uma hora… uma hora, tudo passa. vai ficar tudo bem.

    ele balançou a cabeça como quem diz que sim. quase que sorriu, ficou longe. respirou fundo.

    olharam-se mais uma vez numa cumplicidade sincera entre dois estranhos.

    ela levantou e acelerou o passo. voltou para casa. abaixou a música.

    olhou para fora, pensou alto: já passou. está tudo bem.

    a campainha tocou.

    está na hora, acende essa luz.

    JULHO

  • por Juliana Marcondes 24/jul/16

    Chega
    perto.
    Chega
    disso.
    Vem pra
    cá.
    Sai de
    lá.
    O que vi
    ficou.
    O que foi
    voltou.
    Perto, perto.
    Longe, parte.
    Forte
    está.
    Não
    sei
    como.
    Tão
    bom
    é.

    Lisboa, julho de 2016.